Segunda 24 de Novembro de 2014

Internacional

ENTREVISTA COM EMILIO ALBAMONTE

Seminário sobre a tática e a estratégia na época imperialista

07 Mar 2012 | Nos dias 18, 19, 20 e 21 de fevereiro realizou-se no salão principal do Hotel Bauen (Buenos Aires, Argentina) o seminário “A concepção de estratégia no marxismo de Leon Trotsky”, coordenado por Emilio Albamonte, do qual participaram mais de 200 dos principais dirigentes e quadros do PTS de todo o país e delegações da Fração Trotskista – Quarta Internacional (FT-QI) do Partido de Trabalhadores revolucionários (PTR-CcC) do Chile e da Liga Estratégia revolucionária (LER-QI) do Brasil. Como bibliografia base para a discussão foi tomado o livro de Trotsky “Stalin, o grande organizador de derrotas. A III Internacional depois de Lenin”, de 1928, assim como “Lições de Outubro” e “O ‘terceiro período’ dos erros da Internacional Comunista”. Publicamos uma entrevista com Emilio Albamonte, dirigente do PTS e da FT-QI sobre alguns dos principais debates que atravessaram as quatro jornadas do seminário.   |   comentários

Seminário sobre a tática e a estratégia na época imperialista
Nos dias 18, 19, 20 e 21 de fevereiro realizou-se no salão principal do Hotel Bauen (Buenos Aires, Argentina) o seminário “A concepção de estratégia no marxismo de Leon Trotsky”, coordenado por Emilio Albamonte, do qual participaram mais de 200 dos principais dirigentes e quadros do PTS de todo o país e delegações da Fração Trotskista – Quarta Internacional (FT-QI) do Partido de Trabalhadores revolucionários (PTR-CcC) do Chile e da Liga Estratégia (...)

O seminário começou com a pergunta sobre o que é o marxismo, poderia nos contar brevemente em que consistiu este ponto?

Partimos de uma definição analítica de que é o marxismo a partir de quatro componentes. Por um lado, o marxismo como “concepção do mundo”, cujo fundamento mais geral é a dialética materialista. Isto é, a dialética resgatada por Marx de seu cativeiro idealista e voltada para o mundo da matéria, para a qual nem Deus, nem o Espírito Absoluto, nem nenhum demiurgo da História podem ter nada o que fazer. Dentro desta concepção marxista do mundo, o materialismo histórico é a aplicação da dialética materialista à sociedade humana e seu desenvolvimento.

Por outro lado o marxismo é uma crítica científica à economia política e através dela aos fundamentos do capitalismo, cuja sistematização fundacional foi realizada por Marx em O Capital. Porém também é uma crítica da teoria política, ao contrário dos que opinam que o marxismo só conta com a apropriação-reprodução de filósofos anteriores como Rousseau. Contém uma crítica da política, do direito e do Estado burguês, que não só atravessa as principais obras de análise política de Marx e Engels, como também o próprio “O Capital”, e que posteriormente, da mesma forma como na crítica da economia política, foi enriquecida e desenvolvida pelos “marxistas clássicos” do século XX e muito em especial por Leon Trotsky com suas análises do fascismo, da URSS, dos bonapartismos sui generis nos países semicoloniais, que permitem entender governos como o de Cárdenas ou o de Perón, etc. Por sua vez, o marxismo é uma teoria da revolução que partindo das conclusões mais avançadas da época de seu surgimento, a meados do século XIX, condensa a experiência histórica de mais de 160 anos de luta da classe operária moderna. Uma síntese teórica das lições estratégicas fundamentais da luta do proletariado.

E é nesse sentido, como dizia Lenin, “um guia para a ação”. Isso não significa que contenha um “manual de procedimentos” que nos aponte como atuar em todo tempo e lugar, mas que o conhecimento da experiência anterior nos permite justamente não ter que pensar tudo de novo cada vez que nos enfrentamos com uma determinada situação da luta de classes.

Aqui chegamos a um quarto aspecto do marxismo, que se relaciona mais com a arte que com a ciência, uma arte que diferentemente de outra não atua sobre uma matéria inerte senão sobre as relações humanas buscando a destruição de certas relações e a construção de outras novas. Nos referimos à arte da estratégia, como dizia Trotsky: “não se pode aprender a arte da tática e da estratégia, a arte da luta revolucionária, a não ser pela experiência, pela crítica e a autocrítica” (“Uma escola de estratégia revolucionária”). Esses quatros componentes, o marxismo como concepção do mundo, como crítica à economia política e à teoria política, como teoria da experiência do proletariado, e como arte da estratégia, têm para nossa definição de marxismo uma unidade inseparável. Estamos nos antípodas do que discutiam os neokantianos de que as primeiras dez das “Teses sobre Feuerbach” eram científicas, mas que a Tese XI (onde Marx defende “a transformação do mundo”) era simplesmente um imperativo moral. Para nós o marxismo é justamente essa unidade, é uma teoria da prática e uma arte da estratégia fundada sobre bases científicas (entendendo esta última, é claro, não em sua estreita e vulgar acepção positivista).

Também no seminário, você defendeu a necessidade de desenvolver um marxismo com predominância estratégica, a que se referia?

A necessidade do desenvolvimento de um marxismo com predominância estratégica (a qual evidentemente é inseparável do programa) parte justamente da unidade entre os elementos que assinalava antes, que levam a conceber o marxismo como uma teoria orientada a fazer a revolução.

Até a III Internacional, o conceito de estratégia era praticamente alheio ao marxismo. Discutia-se em termos de tática, não havia diferenciação entre um e outro conceito. Sobre este ponto, quero tomar algumas citações que usamos no seminário. No “Stalin, o grande organizador de derrotas”, Trotsky aponta como na época da II Internacional “o trabalho estratégico se reduzia a nada, se dissolvia no ‘movimento’ cotidiano com suas fórmulas cotidianas de tática. Só a III Internacional restabeleceu os direitos da estratégia revolucionária do comunismo, à qual subordinou completamente os métodos táticos”. Isso não era casual, tinha a ver com a entrada naquilo que Lenin chamou de “época de crises, guerras e revoluções”, e com a enorme experiência adquirida a partir da revolução de outubro, e em geral com os grandes enfrentamentos entre revolução e contrarrevolução que se suscederam.

Trotsky aponta isso para introduzir-se em uma das críticas fundamentais que fará ao projeto de programa redigido por Bukharin para o VI Congresso da Internacional Comunista. Trotsky parte de reconhecer a Bukharin que sob o título “A rota rumo à ditadura do proletariado” pelo menos incluiu no programa uma parte referida à estratégia, porém ato seguido contesta que “no que concerne aos problemas estratégicos, propriamente ditos, o projeto se limita a dar modelos apropriados para as escolas primárias”, como por exemplo “Conquistar (?), influenciar em vastos círculos de trabalhadores em geral...”. Ou seja, frases gerais para todo tempo e lugar.

E logo agrega que “examina-se o problema fundamental do programa, isto é, a estratégia do golpe de estado revolucionário (as condições e os métodos para desencadear a insurreição propriamente dita, a conquista do poder) com aridez e parcimônia (...) consideram-se os grandes combates do proletariado apenas como acontecimentos objetivos, como expressão da “crise geral do capitalismo’, e não como experiência estratégica do proletariado”.

Isto é, enquanto Trotsky considerava que a estratégia (as condições e os métodos) para a conquista do poder é o problema fundamental do programa que só pode ser analisado à luz das lições das principais batalhas da classe operária; para Bukharin esses combates só contavam como uma expressão da crise geral do capitalismo.

Isto nos leva à relação entre estratégia e programa. Trotsky dá uma importância fundamental à estratégia, à qual entende como algo que não é redutível aos objetivos e fins que se estabelecem no programa. A diferença se refere à que existe entre “o que pretendemos conquistar”, pergunta própria do programa, e “como nos propomos a conquistá-lo”, pergunta própria da estratégia.

Que sejam dois elementos diferenciados não significa que para Trotsky sejam separáveis, e sim o contrário. Uma estratégia sem programa se reduz a uma técnica qualquer, porém um programa que não examina a estratégia é “um documento diplomático”. Trotsky justamente considera sua profunda relação quando defende que o exame dos problemas de estratégia é uma das partes fundamentais de qualquer programa que se diga revolucionário.

Isso não está claro hoje? Em que consiste a atualidade deste debate?

Perry Anderson tinha razão em seu livro “Considerações sobre o marxismo ocidental”, quando afirmava que um dos problemas fundamentais do marxismo no segundo pós-guerra mundial havia sido o divórcio estrutural entre teoria e prática. Anderson desenvolve fundamentalmente a crítica ao que denomina “marxismo ocidental”, onde aponta não só a reclusão dos teóricos nas universidades enquanto os PCs dominavam a arena política, mas também o deslocamento das próprias temáticas da economia e da política para a filosofia, a estética ou as superestruturas culturais. De conjunto nesse cenário os problemas da estratégia ficavam fora do campo do pensável.

Porém também é importante assinalar a debilidade que desse ponto de vista tiveram as próprias correntes que se reivindicavam do trotskismo. A média geral consistiu em relegar o desenvolvimento teórico do marxismo e não se produziram obras importantes. Tenha-se a opinião que se quiser sobre suas obras, houve exceções como Isaac Deutscher, Roman Rosdolsky, ou o próprio Ernest Mandel. Porém tampouco estes se levantaram sobre os ombros de Trotsky como estrategista para formular uma nova síntese capaz de novos desenvolvimentos da estratégia marxista. Ao contrário, o que primou foram correntes que defenderam o programa revolucionário em geral, porém subestimando gravemente a estratégia, quebrando a unidade entre programa e estratégia. O resultado foi a adaptação a outras estratégias, como por exemplo a estratégia guerrilheira que era produto de revoluções triunfantes que expropriavam a burguesia constituindo novos estados operários que desde sua própria gênese nasciam burocratizados.

O internacionalismo que dominou a estratégia revolucionária da III Internacional em seus primeiros anos deixava lugar ao “terceiro mundismo” na periferia, a adaptação aos Partidos Comunistas no centro, e no caso dos estados operários, estendeu-se aquilo que Trotsky colocava em sua “Crítica ao programa da Internacional Comunista”, no ano de 1928, que: “A nova doutrina diz: pode se organizar o socialismo em um Estado nacional com a condição de que não haja uma intervenção armada. Daí pode e deve se desprender uma política colaboracionista com a burguesia do exterior, apesar de todas as declarações solenes do projeto de programa”.

A derrota do ascenso iniciado em 1968, e a ofensiva imperialista das três décadas que se seguiram a isso, não fez mais do que aprofundar a ausência generalizada de um pensamento estratégico no marxismo revolucionário.

O desenvolvimento dos problemas de estratégia que para Trotsky era um dos principais trunfos da III Internacional, hoje, até em correntes que se reivindicam trotskistas parece ser uma espécie de excentricidade.

Este tipo de postura não pode contrastar mais na hora de ir à leitura de Trotsky. Por exemplo, quando conta: “Um numeroso grupo de pessoas, reunido em torno à sociedade de ciências militares, empreendeu em 1924 uma obra coletiva para elaborar as normas da guerra civil, ou seja, um guia marxista sobre os problemas dos choques diretos entre classes e da luta armada pela ditadura. No entanto, este trabalho chocou rapidamente com a resistência da Internacional Comunista (esta resistência formava parte do sistema geral de luta contra o ‘trotskismo’), depois liquidou-se completamente esta atividade. Seria difícil conceber um ato realizado à ligeira mais criminoso que este” (L. Trotsky, “Stalin, o grande organizador de derrotas”).

No contexto da crise histórica que atravessa atualmente o sistema capitalista e partindo da debilidade histórica do marxismo no desenvolvimento desses problemas desde o segundo pós-guerra até aqui, não só é indispensável como é cada vez mais urgente o desenvolvimento de um marxismo com predominância estratégica.

No ano passado, você coordenou um seminário para o estudo do estrategista prussiano Carl von Clausewitz e sua obra principal, “Da Guerra”. Agora o tema foi o estudo da concepção de estratégia no marxismo de Trotsky. Qual é a relação entre ambos os seminários?

Este seminário é complementar ao que fizemos no ano passado. Sobre esses debates, estamos escrevendo um livro onde abordamos alguns dos principais conceitos dos teóricos da estratégia militar, e em especial de Clausewitz, assim como os debates mais importantes de estratégia que houve dentro do marxismo, onde sem dúvida a figura de Leon Trotsky como estrategista do proletariado tem um lugar fundamental.

Como assinala Trotsky numa das citações que lemos antes, foi muito importante para a III Internacional a apropriação que fez de determinados conceitos da teoria militar. Por sua vez, tanto da parte de Lenin como de Trotsky há uma profunda apropriação, em particular, de muitos elementos do pensamento de Clausewitz, começando pelas próprias definições de estratégia e tática. Porém nem é preciso dizer que esta apropriação se dá no marco de profundas diferenças.

Por exemplo, se bem Clausewitz tomou a revolução como fundamento da mudança de época no militar e da potência do exército napoleônico, o Estado como unidade política e a “paz civil” em seu interior foram a base de todos os seus desenvolvimentos estratégicos. A conceituação sobre a irrupção do povo “com peso próprio” o distingue qualitativamente como estrategista e intérprete das guerras napoleônicas. No entanto, nunca ultrapassou os marcos de uma reflexão do povo como “massa de manobra” capaz de desenvolver uma “intenção hostil” em consonância com a política do governo. Nosso ponto de partida é radicalmente diferente. A política não é para nós “a inteligência personificada no Estado”, como defendia Clausewitz, mas está inseparavelmente ligada à luta de classes no interior das fronteiras estatais, e por sua vez tem um caráter internacional. E fundamentalmente, como dizia Trotsky, “a história das revoluções é para nós, acima de tudo, a história da irrupção violenta das massas no governo de seus próprios destinos” (História da Revolução Russa). Diferente do “povo”, que é o terceiro elemento da “trindade” desenvolvida por Clausewitz junto com “o governo” e “os generais e seus exércitos”, a classe trabalhadora nunca pode ser pensada como “base de manobra” pelo marxismo revolucionário. A história da luta revolucionária da classe operária distinguiu-se, isso sim, pela sua capacidade de desenvolver organismos de auto-organização de tipo soviético. Esta, assim como as relações entre estes organismos e o partido revolucionário, são as grandes diferenças entre a “trindade” elaborada por Clausewitz, e a de “classe, partido e direção” que Trotsky desenvolve especialmente, por exemplo, em “Classe, partido e direção: por que o proletariado espanhol foi vencido?”.

É ilustrativo como Trotsky se referia a este ponto, dizendo: “Na ação, as massas devem sentir e compreender que o soviete é sua organização, delas, que reagrupa as suas forças para a luta, para a resistência, para a autodefesa e para a ofensiva. Não é na ação de um dia nem, em geral, numa ação levada a cabo de uma só vez, que elas podem sentir e compreender isso, e sim através de experiências que adquirem durante semanas, meses, inclusive anos, com ou sem descontinuidade” (L. Trotsky, “Stalin, o grande organizador de derrotas”).

Não quero desenvolver em profundidade esses pontos aqui porque entendo que supera os objetivos da entrevista, porém desses pontos se desprendem toda uma série de diferenças que dizem respeito exatamente à questão de por que o marxismo revolucionário não pode ser reduzido sob nenhum ponto de vista a um mero militarismo.

Sobre esse último ponto, e marcando as diferenças entre o pensamento militar convencional e o marxismo revolucionário, Trotsky dizia: “o exército é uma organização de violência, está obrigado a combater. Uma repressão militar muito dura ameaça os recalcitrantes. Nenhum exército pode existir de outra maneira. Porém em um exército revolucionário a principal força motriz é sua consciência política, seu entusiasmo revolucionário, a compreensão por parte da maioria do exército do problema militar que espera e da vontade de resolvê-lo. Quanto isso importa nas lutas decisivas da classe operária! Não há direito a forçar ninguém a fazer uma revolução. Não existem instrumentos de repressão. O êxito não se baseia mais do que sobre a vontade da maior parte dos trabalhadores, em intervir direta ou indiretamente na luta para ajudá-la a vencer” (L. Trotsky, “Escola de estratégia revolucionária”).

O “Stalin, o grande organizador de derrotas” foi o texto principal que se discutiu no seminário, você apontou várias citações dele ao longo da entrevista, porém: por que basear-se em um texto de 1928 para o seminário?

Ainda que seja fato que vários dos elementos que estão expostos nesse livro sejam desenvolvidos muito mais por Trotsky em obras posteriores, é muito interessante estudar a obra de Trotsky desses anos. É uma época repleta de fenômenos históricos de grande transcendência não só pela existência da URSS e dos processos em seu interior, mas também pelos múltiplos processos revolucionários que se desenvolvem. O livro de Trotsky toma como ponto de partida a derrota da revolução alemã de 1923 e os 5 anos posteriores estão cheios de lições estratégicas. Com a III Internacional burocratizada, Trotsky vai ser o único que encara em profundidade o balanço desses processos enriquecendo enormemente o acervo estratégico do marxismo.

É muito interessante ver a complexa relação que Trotsky estabelece entre o político e o econômico, entre o objetivo e o subjetivo, entre a crise capitalista, os momentos de estabilização e o papel que cumprem neles as derrotas da classe operária. Por exemplo, diz: “não há situações absolutamente ‘sem saída’. A burguesia pode escapar de uma maneira duradoura a suas contradições mais penosas unicamente seguindo pela via aberta pelas derrotas do proletariado e os erros da direção revolucionária. Porém o contrário também pode suceder. Não haverá novos progressos do capitalismo mundial (...) se o proletariado sabe encontrar o meio de sair pelo caminho revolucionário do presente equilíbrio instável”. É evidente que Trotsky não pode estar mais longe dessas caricaturas que fazem do marxismo, onde as crises fariam com que o capitalismo “caia por si só”.

Durante o período que o livro toma, dão-se processos fundamentais como a revolução alemã de 1923, a greve geral na Inglaterra em 1926, a revolução chinesa de 1925-1927.

O combate ao ultra esquerdismo havia possibilitado avançar na construção de um partido forte na Alemanha, no entanto, a revolução de 1923 mostra que a direção do partido alemão havia se tornado incapaz de se desfazer da rotina, e desta forma a tática termina deslocando a estratégia. Trotsky é muito agudo em apontar este problema quando diz que “A luta cotidiana para conquistar as massas absorve toda a atenção, cria a sua própria rotina na tática e impede de ver os problemas estratégicos que se deduzem das modificações da situação objetiva” (L. Trotsky, “Stalin, o grande organizador de derrotas”).

Na Inglaterra, a tática da Frente Única deixa de servir para fortalecer a própria força dos comunistas e conseguir aliados para a vanguarda proletária para converter-se em seu contrário. O Comitê anglo-russo com as direções das trade-unions deixa de ser uma coalizão temporária para transformar-se em um acordo estratégico que leva à derrota do movimento grevístico mais importante da Inglaterra no século XX. Outro tanto sucede na revolução chinesa com a resolução da IC que ordenava ao Partido Comunista Chinês subordinar-se política e organizativamente a Chiang Kai Shek, e depois a Wan Tin Wei. O que teve como consequência catastrófica o massacre dos comunistas chineses pelas mãos do Kuomintang.

Trotsky justamente desenvolve a crítica a essa trajetória onde a tática termina subordinando a estratégia, onde os acordos circunstanciais como o Comitê anglo-russo são transformados em alianças estratégicas. No entanto, este curso oportunista não impede que a burocracia da IC o combine com saídas ultra esquerdistas. Depois de haver deixado passar a situação revolucionária na Alemanha sem luta, a IC se lança a ações ultra esquerdistas como o atentado à catedral de Sofia em 1924. O mesmo se dá na China, depois que a vanguarda sofreu golpes fundamentais devido à política de subordinação ao Kuomintang, e para encobrir as consequências desta política, se lança à insurreição em Cantão, a qual lançada a destempo termina em uma nova derrota.

Um curso típico do centrismo que defende uma política de direita que leva à derrota, e uma vez concretada esta e modificada desfavoravelmente a relação de forças, se lança a aventuras ultra esquerdistas para encobrir as consequências de seus próprios atos.

Esses são alguns dos pontos pelos quais todo militante sério deveria revalorizar este texto de Trotsky, que depois continuará e desenvolverá em suas análises sobre a ascensão do fascismo na Alemanha, sobre a revolução espanhola, etc.

Estas elaborações são de suma importância já que mostram claramente a figura do Trotsky estrategista, que foi reduzido muitas vezes por grande parte das organizações que se reivindicam do trotskismo a uma espécie de escolástica.

E por sua vez, mostram a superficialidade das reconstruções do marxismo do século XX como a que expõe José Aricó em suas lições do curso ditado no México em 1977, recentemente publicadas sob o título “Nove lições sobre economia e política no marxismo”, onde parece que Trotsky morre junto com Lenin e em 1924 deixa de ser parte da história do marxismo, o que não é preciso dizer que não alcança a mínima seriedade teórica.

No seminário, fazendo um paralelo com certas discussões de teóricos da estratégia militar, você falou de teorias “combatocêntricas”. Você opina que este conceito pode ser utilizado para a Teoria da Revolução Permanente? Em outras palavras, a Teoria da Revolução Permanente é “combatocêntrica”?

O termo “combatocêntrico” surge na realidade para descrever o tipo de pensamento estratégico inaugurado por Carl von Clausewitz. Um dos que o tomam é um intelectual do imperialismo norte-americano especialista em Clausewitz que defende que “assim como o sistema de Copérnico é descrito como heliocêntrico, também devemos pensar o sistema de Clausewitz como combatocêntrico (...) se tivéssemos que eliminar a luta ou a violência do sistema de Clausewitz, este se derrubaria” (A. J. Echevarria II, “Clausewitz. Contemporary War”).

Tomando esta acepção, poderíamos dizer que a Teoria da Revolução Permanente enquanto teoria programa ligada à estratégia em um sentido é combatocêntrica, e em outro não.

Em que sentido sim? Enquanto teoria programa ligada à estratégia elaborada para a época imperialista. Ela o é no sentido de que parte de que as posições conquistadas sindicais, parlamentares, etc., assim como os próprios aliados, e o tipo de organizações revolucionárias a construir devem ser pensadas em função de sua utilidade para o combate. Neste sentido, a rotina da tática não deve nos fazer perder de vista este elemento. A burguesia obriga o proletariado a pensar em um marxismo deste tipo para enfrentar massacres monumentais como as duas guerras mundiais, as contrarrevoluções fascistas, sofrimentos inauditos produtos de crises como a dos anos 1930 (em que sua profundidade é comparada com a crise atual não só por nós, como por muitos analistas burgueses). No “Stalin, o grande organizador de derrotas”, por exemplo, Trotsky desenvolve pormenorizadamente a relação entre uma “posição” como a que representa a conquista do poder em um país, e a necessidade de colocá-la a serviço da revolução internacional.

No entanto, não se deve confundir isso com o combate permanente. Tampouco, é claro, há que se confundir a Teoria da Revolução Permanente com que a revolução esteja colocada em todo tempo e lugar ou com uma espécie de voluntarismo.

A época imperialista, com suas crises e guerras coloca a atualidade da revolução proletária. Dentro da própria III Internacional houve setores ultra esquerdistas que interpretaram a “atualidade” da revolução proletária na nova época como sinônimo de “iminência”, como fundamento para a teoria da “ofensiva revolucionária” permanente. Trotsky teve que se enfrentar com uma variação mais grotesca, com o começo do “terceiro período” e condenou como política oficial a orientação ultra esquerdista de “classe contra classe”.

Como apontou Trotsky: “O caráter da época não consiste em que permita realizar a revolução, isto é, tomar o poder cada momento, e sim em suas profundas e bruscas oscilações, em suas transições frequentes e brutais” (L. Trotsky, “Stalin, o grande organizador de derrotas”). É evidente, essas características estiveram mediadas em maior ou menor medida em cada uma das etapas em que se dividiu a época de crises, guerras e revoluções, no entanto sua compreensão nunca deixou de ser fundamental.

Trotsky no mesmo livro discute como “Se não se compreende de uma maneira ampla, generalizada, dialética, que a atual é uma época de mudanças bruscas, não é possível educar verdadeiramente os jovens partidos, dirigir judiciosamente do ponto de vista estratégico da luta de classes, combinar de maneira exata seus procedimentos táticos nem, sobretudo, trocar de armas brusca, resoluta, audazmente ante cada nova situação”. Em que sentido não é combatocêntrica a Teoria da Revolução Permanente? Enquanto é uma teoria da revolução socialista internacional, e como tal inclui o aspecto militar (guerra civil, insurreição, etc.) porém este constitui só uma parte de um todo onde a primazia é da política. A Teoria da Revolução Permanente parte da luta de classes à escala nacional, se desenvolve no terreno internacional e só culmina com a centralização das forças produtivas em nível internacional, com a extinção do estado, das classes, da exploração e da opressão. Nesse sentido, podemos dizer parafraseando Pierre Naville em seu prólogo a “Da Guerra”, que é uma teoria da “política absoluta” enquanto antítese do conceito de Clausewitz de “guerra absoluta”. É uma teoria que busca o fim de tudo aquilo que serve de causa para as guerras.

Para terminar, poderia nos comentar brevemente as conclusões a que chegaram no seminário

Sim, como dizia, começamos com uma definição analítica do marxismo, tentamos chegar ao final do seminário a uma definição sintética do que significa um marxismo com predominância da estratégia. Preferimos fazer ênfase no marxismo como uma corrente que sintetiza a experiência teórico-prática do proletariado do último século e meio. Um marxismo que defende como meios estratégicos a derrubada do Estado burguês e a criação de estados operários transicionais, isto é, ditaduras do proletariado baseadas em organismos de tipo soviético até alcançar a centralização e planificação das forças produtivas à escala mundial como fundamento material para criar uma sociedade de produtores livres e associados. Isto é, começar a concretizar o comunismo.

Em nossa definição os meios estratégicos (ditadura do proletariado) e o objetivo ou “fim político” (comunismo) que coincide com a extinção do estado, das classes e da exploração do homem pelo homem, estão indissoluvelmente ligados.

Em 2010, a editora Paidós publicou em castelhano um simpósio “Sobre a ideia de Comunismo”, organizado por Badiou e Zizek um anos antes. Nós estamos nas antípodas do que defende o filósofo francês Alain Badiou, de que: “a ideia comunista é a operação imaginária mediante a qual uma subjetivação individual projeta um fragmento do real político na narração simbólica de uma História (...) Hoje é essencial compreender claramente que ‘comunista’ já não pode ser o adjetivo que qualifica uma política”.

Quando apontamos que a Teoria da Revolução Permanente é uma teoria da “política absoluta”, o que queremos destacar é a ligação concreta que há entre nosso programa e nossa estratégia com o “objetivo político” do comunismo. Com isso não pretendemos nos aproximar das visões idealistas ao estilo de Toni Negri que postulam o comunismo “aqui e agora”, e que terminam se adaptando às variantes “progressistas” da burguesia, e sim exatamente o contrário.

Nossa concepção está ligada aos conceitos de tática e estratégia. Tanto para Trotsky como para Clausewitz, enquanto que a tática é a condução de combates isolados, a estratégia é o que liga esses combates ao “objetivo político”. Para nós o comunismo não representa uma Ideia com maiúscula, nem uma palavra vazia, mas nosso “objetivo político” mais elevado. Enquanto tal, defendemos que o marxismo revolucionário não deve perder de vista este objetivo no calor das batalhas e conquistas parciais.

Isso não é para nós uma consideração abstrata, mas parte de nosso balanço daquela deriva, após a segunda guerra mundial, das correntes que se reivindicavam trotskistas mas no entanto defenderam um marco estratégico característico da etapa segundo o qual o socialismo se estendia através de “quaisquer revoluções” com “quaisquer direções”. O grande valor da teoria da revolução permanente para nós está justamente neste ponto: o de ser uma teoria programa ligada à estratégia que põe as conquistas parciais, por exemplo, a tomada do poder em um país em função do objetivo da revolução mundial e do processo de mudanças sociais, políticas e culturais que após a tomada do poder se orientem para a extinção do estado, das classes, da exploração e da opressão, e inclusive do próprio marxismo. Como aponta Terry Eagleton na mesma compilação: “O socialismo é um projeto que se derruba a si mesmo. Esta é uma das razões pelas quais ser socialista não tem nada a ver com ser judeu ou muçulmano. O marxismo mesmo pertence à época da pré-história. Em uma sociedade comunista, sua tarefa é desvanecer-se o mais rápido que a decência o permita”.

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